Palestina

Se você pretende visitar a Palestina é altamente aconselhável ler este texto antes.


“O trajeto de entrada na Palestina traz em si muitas dificuldades, claro, aos palestinos, e também a turistas. Se você desce em Amã, a passagem da Jordânia para o Território Ocupado da Palestina, na Cisjordânia, é controlada por Israel. Lá, há a chance de você ser interrogado como um ativista, e passar por horas de perguntas e checagem. Eu, particularmente, passei 12 horas nesse posto quando fui para a Palestina. E vi uma mulher palestina ser recusada, chorando em frente ao soldado. Claro, é o primeiro ponto de contato com a ocupação.

O problema de programas de turismo no caso da Palestina é que ele pode normalizar a ocupação. Isso deve ser uma preocupação. É importante que mais pessoas viajem e observem o que acontece na Palestina. Mas o que Israel faz em lugares como Jerusalém Oriental e Bethlehem é realizar passeios turísticos ocultando a ocupação, mesmo não revelando o fato de que os turistas estão entrando na Palestina ocupada, por exemplo, quando vão a Jerusalém Oriental, a Bethlehem ou a Hebron. Por um lado é importante que os palestinos façam esse trajetos, que guias palestinos possam orientar os turistas e guiar os passeios no lugar de um guia israelense. Eles podem contar o que é o dia a dia da estar em um Território Ocupado. Belém está rodeada pelo Muro que invade a Cisjordânia. Hebron tem exércitos e colonos, e todo um sistema de restrição de movimento a palestinos, no que é o principal ponto turístico da cidade. Em um dia, pode se ter que visitar sítios históricos em meio a protestos de palestinos contra as forças de ocupação. Ou de restrição de movimento, dependendo de como estiver a situação. Um outro problema, e esta é a armadilha, é que o guia palestino ou um programa da Autoridade Palestina possa fazer o mesmo, consolidar essa normalização. Digo, procurar vender passeios turísticos entremeados à ocupação, sem abordá-la, sem esclarecê-la. A Autoridade hoje tem a sua própria agenda, que envolve diplomacia e fazer a economia funcionar sem combater a ocupação israelense.

Há que se tomar cuidado ainda com a exaltação que as pessoas muitas vezes fazem de Ramallah. De fato, você pode aproveitar noites, comer, enfim, fazer coisas que normalmente faria em uma viagem turística. Mas, por um lado, ela se levantou como um dos elementos da farsa de Oslo, uma economia movimentada por ajuda internacional e um controle econômico exercido por Israel, que pode pressionar a Autoridade a qualquer momento. E é importante que a pessoa viaje para outras cidades, ver a desigualdade de investimento entre as cidades palestinas. Mesmo Nablus, a maior cidade, não tem a paisagem urbana desse proclamado desenvolvimento. Uma outra questão é que a passagem de uma cidade para outra está controlada por postos de controle. O controle pode ser apertado ou afrouxado dependendo da vontade de Israel.

Apesar das dificuldades, é importante que as pessoas viajem à Palestina e que iniciativas sejam incentivadas. O problema é a agenda que leva a pessoa para lá. É importante que a ida à Palestina informe as pessoas sobre o que acontece lá. Os problemas não acontecem somente na entrada, ou seja, depois que se entra. É importante que as pessoas saibam o que acontece, mesmo que seja em uma viagem turística. É um problema, por outro lado, que algumas realidades sejam ocultadas, o que pode consolidar uma situação problemática, que pode ser confortável para alguns políticos palestinos e, claro, para a ocupação israelense, mas não para a população palestina.”

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